Depoimento n° 010 – Abuso físico

Ontem à noite, meu namorado de 1 ano e meio e eu discutimos. Nós dois éramos tão ruins quanto o outro; eu admito isso da minha parte.

Mas então do nada, ele pulou no meu rosto, me empurrando, puxando meu cabelo, me chamando de nomes horríveis, me chutando, ameaçando quebrar minhas pernas e esmagar minha cabeça e, em seguida, arrancou um controle remoto de mim e cortou minha mão.

Então, quando eu estava chorando, parecia incomodá-lo mais, e ele zombou de mim por isso.

Eu queria ir para casa (tenho apenas 16 anos, ele tem 19), queria ver meus pais, mas moro a duas horas de distância, e os ônibus estavam fechados, e eu não queria preocupar minha família, então fiquei a noite toda.

Eu estava chorando a maior parte do tempo, então quando ele veio para a cama, me deu um abraço porque acho que eu precisava de conforto, mas eu não queria, minha cabeça me disse que não, mas eu queria. O que devo fazer?

Eu tenho que fingir esquecer a batida porque agi como se nunca tivesse acontecido na hora de dormir? Não sei, esse é meu primeiro relacionamento e agora fiquei com hematomas e sem ideia do que fazer ou o que pensar sobre tudo isso.

Preciso de ajuda.

– E você, o que faria no lugar dessa moça?

Depoimento n° 007 – Bipolaridade e Depressão

Depoimento n° 007 – Bipolaridade e Depressão

Quando eu tinha quinze anos cortei uma foto minha ao meio e entre um pedaço e outro escrevi: “antítese “. Era assim que eu me percebia, uma contradição. Dois opostos na mesma pessoa.

Lembro com exatidão que aos 16 tive depressão. Comecei a chorar pelo fim de um namoro e sete meses depois ainda chorava diariamente, porém sem saber mais por qual motivo. Na época não sabia que era depressão, pois não se falava sobre saúde mental, e isso ainda era um tabu. Mas hoje sei que foi o primeiro episódio depressivo do qual me lembro. Outros vieram no decorrer desses 37 anos. 

Aos 31, já bem informada sobre doenças psiquiatras,  ao me perceber novamente chorando diariamente sem uma justificativa, iniciei o tratamento com um psicólogo que me encaminhou ao psiquiatra por achar que eu deveria ser medicada diante do grande sofrimento emocional: eu não conseguia parar de chorar nem no trabalho. Tomei antidepressivo, fiz terapia por anos.

Mas poucos meses depois,  eu não sabia se pelo efeito excepcional da terapia, pela medicação correta, ou outra razão não aparente, eu simplesmente havia me transformado em outra pessoa… E isso era maravilhoso. Eu tinha me transformado em alguém em que sempre sonhei: extremamente segura, independentemente, eloquente, fazia amizades com uma facilidade espetacular. Eu era engraçada, admirada pelos demais, estava mais bonita. Tinha inúmeros projetos,  estava tendo sucesso na vida profissional. Realizei diversos sonhos, saltei de parapente, pousei nua para um fotógrafo. Tinha uma vida agitadíssima, a qual nenhum amigo conseguia acompanhar,  por isso precicei de vários colegas. Dormia de 3 à 4 horas por dia, trabalhava, tinha várias atividades de lazer,  saía todas as noites para beber. Experimentei drogas, fazia sexo incansavelmente quase diário com pessoas diferentes, coloquei muitos piercings, fiz muitas tatuagens, não me importava com o que os outros pensavam… A chuva caindo na minha pele me dava prazer, luz do sol era belíssima, o mundo incrível e eu maravilhosa! 

Aquela foi a melhor época da minha vida. Foram meses daquele jeito.  De lá pra cá,  não fiquei naquele estado de plenitude e de ausência de sono de novo. Mas certos dias eu estava mais agitada, irritada,  falante, limpando tudo, bebendo todos os dias ou com uma libido que ia além do normal para a maioria dos seres humanos. Uma semana depois e tudo voltava ao ritmo normal. Nestes anos, algumas fases de depressão que duravam meses, em que eu ficava sololenta, engordava, largava tantos projetos profissionais. 

Lendo assim, na ordem cronológica, até quem mal leu sobre psiquiatria diria que sou bipolar. Mas pasmem,  esse diagnóstico só me foi dado há um ano atrás. Isso corrobora com o que os artigos médicos já falam, que o portador de transtorno bipolar demora em média 10 anos entrando e saindo de consultórios para então receber o diagnóstico correto. Comigo aconteceu por ter tido a sorte de encontrar um psiquiatra do plano de saúde que me ouvisse por uma hora depois de tantos outros que não o fizeram. 

A convivência social é muito difícil e o número de relacionamentos desfeitos enorme. Mas saber realmente o que tenho me faz por a mão no freio na hora que quero explodir sem medir as consequências. 

Hoje percebo como minha vida profissional teria tido mais sucesso se eu tivesse me tratado desde os primeiros episódios do transtorno (que normalmente é confundido com depressão simples), pois a cada crise depressiva eu abandova tudo e depois tinha que começar do zero. 

Outra coisa que me chamou atenção ao estudar mais esse distúrbio foi que o número de suicídios em bipolares é bem alto e bem superior ao que ocorre em quem tem apenas depressão. Pensamentos suicidas são como uma sombra na minha vida, sempre me acompanhando. Já tentei uma vez. Esse ano eu tinha certeza de que não chegaria a dezembro nesta fase de depressão violenta que já dura um ano e dois meses. Saber das estatísticas me alertam a pedir ajuda antes de tentar contra minha vida. 

Esse ano abri mão do meu casamento, fui agredida por uma parente ignorante que acha que problemas psiquiatricos são simulações, perdi meses de trabalho com licença saúde, perdi muito tempo da minha vida, perdi meu melhor amigo, bens e dinheiro com medicação. Mas eu ganhei tantos seres humanos maravilhosos, dispostos a me socorrer, amigos de uma generosidade que eu achava que não existia mais. E sobretudo, eu ganhei um ano a mais de vida, por que eu não acreditava que sobreviveria até aqui. Então se me perguntarem qual foi a coisa mais importante que eu fiz em 2019, vou responder que foi sobreviver. Não teria conseguido sem os amigos, a família, um psiquiatra competente, bons remédios e minha psicóloga. 

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 006 – Relacionamento abusivo

Depoimento n° 006 – Relacionamento abusivo

Eu estive em um relacionamento abusivo por cerca de 10 meses.

Minha namorada constantemente me jogava contra seu ex, correndo entre nós quando ela queria coisas e mentindo sobre isso. Ela definiu seu ex como o “grande monstro” que queria me expulsar e todos os seus amigos estavam atrás de mim. Ela me aconselhou a conseguir um apartamento seguro para que eu estivesse em segurança.

Ela me disse que eu era ingênua e inocente e não tão inteligente quanto ela, então eu precisava dela para me proteger. Ela se recusava a me permitir fazer qualquer trabalho doméstico, como eu deveria estar estudando / trabalhando / dormindo.

Eu sabia que ela era agressiva desde o início, mas ela me prometeu que nunca iria bater em uma mulher.

Reconheci sinais de que ela estava brincando comigo desde o início, mas não queria acreditar que a mulher que eu adorava pudesse estar brincando comigo. Então eu ignorei, ela era muito boa e cuidava de mim de um jeito que me machucasse de qualquer maneira. Conversei com meus amigos durante o relacionamento e eles me disseram para deixá-la, mas eu era teimosa e queria que isso funcionasse. Quando ela finalmente me bateu (e eu pude ver isso por um bom tempo – sua raiva era demais para ela lidar com isso), desmoronei.

Quando ela me prendeu contra uma parede e me deu um soco na boca duas vezes, desmoronei. Liguei para meus pais para me buscar. Percebi que todo o seu comportamento passado era típico de um relacionamento abusivo e tomei a decisão de nunca mais querer ver ou falar com ela. Infelizmente, isso significa que também perdi contato com os filhos dela.

Minha mãe me ajudou muito, porque já havia passado por isso antes. Meu melhor amigo me fez perceber que nada foi minha culpa. Os conselheiros da minha universidade que foram maravilhosos desde o início.

O que eu diria para alguém que está sendo abusado:

Vá embora. Eles podem ser alcoólatras ou viciados ou desempregados ou qualquer coisa…. mas a única pessoa que pode ajudá-los, são eles. Seu amor não os salvará e você somente se destruirá no processo. O comportamento deles só melhorará quando eles começarem a assumir a responsabilidade por seus próprios sentimentos e ações. Minha ex estava com raiva de todo mundo. Nenhum de seus problemas foi culpa dela, em sua cabeça. Não se deixe enganar por esse comportamento. Não espere que eles batam em você. Não espere que eles te matem. Se você se sentir desconfortável ou descontente com um certo aspecto do seu relacionamento, converse com alguém sobre isso.

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 005 – Alcoolismo

Depoimento n° 005 – Alcoolismo

Meu nome é Ana (nome fictício), sou alcoólatra.
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Minha primeira bebida levou ao meu primeiro apagão. O álcool tirou a timidez, paralisando a autoconsciência. Isso me deu uma nova sensação calorosa e feliz que me liberou para fazer qualquer coisa. Dancei em festas, gritei na rua, cantei em ônibus, viajei de carona com desconhecidos, conversei com estranhos, sem medo de nada. Eu amava. Eu pensava que isso me ajudava a ser o verdadeiro eu. Eu não queria fazer nada que não envolvesse bebida: cinema – chato, caminhadas – nem pensar!
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Aprendi cedo a tomar algumas bebidas no armário da minha mãe antes de sair, enchendo garrafas em miniatura para levar comigo. Eu pensava que todo mundo fazia isso! Olho para a adolescência e vejo que não tenho ideia do que minha família estava fazendo, nem lembrança de passar algum tempo com eles.
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Fui à Espanha por 6 meses – meus dias de universidade ainda são um buraco negro cheio de luzes cintilantes – e fui hospitalizada com intoxicação por álcool. Voltei e me casei com um bebedor profissional, viciado em trabalho, que cuidava das coisas chatas – contas, tarefas domésticas etc. Tínhamos dois filhos lindos e beber para festejar deixou de ser uma opção – começou assim minha bebida secreta.
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Escondendo garrafas, tentando esconder o
fato de que eu tinha tomado uma bebida, esgueirando bebidas extras sempre que tínhamos companhia, roubando dinheiro por bebida, dando qualquer desculpa para comprar uma garrafa. E ficou pior. Comecei a sentir vergonha – uma queimadura rápida que outra bebida consertaria.
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Consegui me divorciar de meu marido por seu comportamento irracional e encontrei outra pessoa que bebia como eu. Eu estava com um grande problema agora. Desesperadamente infeliz, a vida no caos, chegando no chão da cozinha pela manhã, tentando levar as crianças para a escola, a casa sendo recuperada pelo banco. Vi conselheiros, psicólogos – culpando minha infância, minha mãe, meu marido – qualquer pessoa e tudo.
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Eu estava com problemas. Mas se eu pudesse resolver o dinheiro (pedi emprestado e implorei a alguém que permanecesse esperando por tempo suficiente). Se eu pudesse encontrar o homem certo. Se ao menos eu tivesse uma educação diferente. Se eu conseguisse o emprego certo. Eu ficaria bem se tudo desse certo.
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Eu tinha uma última ‘amiga’. Uma vizinha que trouxe comida para as crianças me deu dinheiro. Ela me disse num domingo de manhã que eu tinha que fazer alguma coisa ou ela teria que ir embora. Ela simplesmente não conseguia mais assistir aquela autodestruição. Não sei o que me levou a fazer a ligação para o AA. Graças a Deus pelos membros do AA em serviço, pessoas no final do telefone 24 horas por dia, 7 dias por semana, para atender chamadas de pessoas como eu, sem ter para onde ir, sem mais desculpas.
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Dentro de algumas horas, dois membros do Alcoólicos Anônimos estavam na minha sala, cortinas fechadas, lágrimas de vodka e ranho correndo. Eles não estavam interessados nos meus problemas. Eles me contaram sobre o modo como bebiam e eu sabia que eram como eu. Eu nunca admiti isso para ninguém. Eles me falaram sobre alcoolismo, a alergia física que significava que, uma vez que eu tomei uma bebida, não consegui parar.
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A doença espiritual que levou à terrível solidão e terror. Essas pessoas me disseram que haviam encontrado uma maneira de parar de beber no AA e que suas vidas haviam mudado para melhor e estavam felizes. Não sei por que, mas acreditei neles. Eu fiz como eles sugeriram. Eu fui a uma reunião perto da minha casa, comecei a ir por outras pessoas, comecei a trabalhar nos 12 Passos. Depois de pouco tempo, o desejo de beber me deixou e não voltou. Minha vida mudou de maneiras que estão além da crença. Tenho fé no futuro e não tenho mais vergonha do meu passado. Sou muito grata pela chance de viver livre da obsessão pelo álcool.

Ana.

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 002 – Bipolaridade

Depoimento n° 002

Queria falar um pouco sobre um sintoma muito comum na fase de mania da bipolaridade: a gastança. E vou usar um exemplo antigo e dois bem recentes.
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Sabe criança que fica com inveja que o amiguinho ganhou um presente e ele quer também? O bipolar maníaco é assim também. Bastou a filha de um amigo ganhar um peixe Betta que se instalou em mim a necessidade de ter um também.

Necessidade que se tornou tão grande que eu tive que sair de casa pra ir comprar o peixe, que é o animal mais inútil que se pode ter.
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Outro exemplo foi que minha psicóloga me incentivou a procurar novos hobbies. O que eu fiz? Comprei todo o material de pesca, desde a vara até as iscas artificiais. Por puro impulso de gastar dinheiro, porque nem de pescar eu gosto.
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Mas o maior exemplo foi quando a Cosac Naify (melhor editora do Brasil) quebrou e fez um queima de estoque. Não vem ao caso dizer o número, mas posso dizer que gastei mais de oitenta mil reais em mil e quinhentos livros, a maior parte deles inútil para mim porque de áreas que não me interessam.
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Por isso, quando você se sente em fase de mania, tome MUITO controle sobre suas finanças. Eu já perdi tudo duas vezes diferentes. E é evitável. Converse com seu psiquiatra e diga que está se sentindo assim, ele certamente vai mudar ou aumentar sua medicação para tirar você da crise.
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Lembre-se sempre: o psiquiatra é seu melhor amigo. Não minta pra ele, siga seus conselhos e tente não gastar demais…

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E você, o que faria nessa situação?