Depoimento n° 005 – Alcoolismo

Depoimento n° 005 – Alcoolismo

Meu nome é Ana (nome fictício), sou alcoólatra.
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Minha primeira bebida levou ao meu primeiro apagão. O álcool tirou a timidez, paralisando a autoconsciência. Isso me deu uma nova sensação calorosa e feliz que me liberou para fazer qualquer coisa. Dancei em festas, gritei na rua, cantei em ônibus, viajei de carona com desconhecidos, conversei com estranhos, sem medo de nada. Eu amava. Eu pensava que isso me ajudava a ser o verdadeiro eu. Eu não queria fazer nada que não envolvesse bebida: cinema – chato, caminhadas – nem pensar!
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Aprendi cedo a tomar algumas bebidas no armário da minha mãe antes de sair, enchendo garrafas em miniatura para levar comigo. Eu pensava que todo mundo fazia isso! Olho para a adolescência e vejo que não tenho ideia do que minha família estava fazendo, nem lembrança de passar algum tempo com eles.
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Fui à Espanha por 6 meses – meus dias de universidade ainda são um buraco negro cheio de luzes cintilantes – e fui hospitalizada com intoxicação por álcool. Voltei e me casei com um bebedor profissional, viciado em trabalho, que cuidava das coisas chatas – contas, tarefas domésticas etc. Tínhamos dois filhos lindos e beber para festejar deixou de ser uma opção – começou assim minha bebida secreta.
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Escondendo garrafas, tentando esconder o
fato de que eu tinha tomado uma bebida, esgueirando bebidas extras sempre que tínhamos companhia, roubando dinheiro por bebida, dando qualquer desculpa para comprar uma garrafa. E ficou pior. Comecei a sentir vergonha – uma queimadura rápida que outra bebida consertaria.
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Consegui me divorciar de meu marido por seu comportamento irracional e encontrei outra pessoa que bebia como eu. Eu estava com um grande problema agora. Desesperadamente infeliz, a vida no caos, chegando no chão da cozinha pela manhã, tentando levar as crianças para a escola, a casa sendo recuperada pelo banco. Vi conselheiros, psicólogos – culpando minha infância, minha mãe, meu marido – qualquer pessoa e tudo.
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Eu estava com problemas. Mas se eu pudesse resolver o dinheiro (pedi emprestado e implorei a alguém que permanecesse esperando por tempo suficiente). Se eu pudesse encontrar o homem certo. Se ao menos eu tivesse uma educação diferente. Se eu conseguisse o emprego certo. Eu ficaria bem se tudo desse certo.
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Eu tinha uma última ‘amiga’. Uma vizinha que trouxe comida para as crianças me deu dinheiro. Ela me disse num domingo de manhã que eu tinha que fazer alguma coisa ou ela teria que ir embora. Ela simplesmente não conseguia mais assistir aquela autodestruição. Não sei o que me levou a fazer a ligação para o AA. Graças a Deus pelos membros do AA em serviço, pessoas no final do telefone 24 horas por dia, 7 dias por semana, para atender chamadas de pessoas como eu, sem ter para onde ir, sem mais desculpas.
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Dentro de algumas horas, dois membros do Alcoólicos Anônimos estavam na minha sala, cortinas fechadas, lágrimas de vodka e ranho correndo. Eles não estavam interessados nos meus problemas. Eles me contaram sobre o modo como bebiam e eu sabia que eram como eu. Eu nunca admiti isso para ninguém. Eles me falaram sobre alcoolismo, a alergia física que significava que, uma vez que eu tomei uma bebida, não consegui parar.
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A doença espiritual que levou à terrível solidão e terror. Essas pessoas me disseram que haviam encontrado uma maneira de parar de beber no AA e que suas vidas haviam mudado para melhor e estavam felizes. Não sei por que, mas acreditei neles. Eu fiz como eles sugeriram. Eu fui a uma reunião perto da minha casa, comecei a ir por outras pessoas, comecei a trabalhar nos 12 Passos. Depois de pouco tempo, o desejo de beber me deixou e não voltou. Minha vida mudou de maneiras que estão além da crença. Tenho fé no futuro e não tenho mais vergonha do meu passado. Sou muito grata pela chance de viver livre da obsessão pelo álcool.

Ana.

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 003 – Alcoolismo

Depoimento n° 003

Certa vez, passei 58 dias bebendo sem parar. Isso mesmo, você não leu errado: foram cinquenta e oito dias bebendo o dia todo. Eu só parava para dormir (para bodar, na verdade) e já deixava a primeira dose do dia seguinte pronta na geladeira. O gelo derreteria, mas a bebida se manteria fria o suficiente para atender ao paladar.

Qualquer hora que eu acordasse era hora de beber. Se eu acordasse três da manhã, era hora de beber; se acordasse às oito, também era hora de beber. Nunca tinha uma hora em que a bebida não fosse bem vinda. O corpo cheio de ressaca não aceitava bem a bebida, mas todo mundo que bebe sabe que depois da primeira dose fica tudo mais fácil.

E para que ela fosse sempre bem vinda, eu precisei tirar todo o resto que “atrapalhasse” a bebida. Isso significou me afastar da minha família e dos meus amigos, que em vão tentaram me ajudar – mas é difícil ajudar quem não quer ser ajudado.

As músicas repetidas centenas de vezes ajudavam a criar a aura de decadência. As fezes de gato pelos cantos da casa tornavam o ambiente totalmente inóspito. Até hoje tenho dores de arrependimento do que o meu pobre gatinho sofreu com um dono que não limpava sua sujeira, que se esquecia de colocar água fresca e que o obrigava a fazer suas necessidades pelos cantos da casa.

Outros detalhes básicos da vida foram perdidos. A higiene foi para o espaço. Passava dias e dias sem tomar um banho, sempre bêbado. Não escovava os dentes nem penteava os cabelos. Tudo se resumia ao álcool. As poucas pessoas que recebi nesse período estavam lá para beber e não atrapalhar a minha bebida, que era a prioridade.

E quando eu vi, de repente, haviam-se passado 58 dias e 74 garrafas de vodka. Não sei como sobrevivi.

Mas estou aqui.

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E você, o que faria nessa situação?