Depoimento n° 009 – Depressão na Adolescência

Os pais nem sempre reconhecem os sintomas de depressão e ansiedade dos adolescentes no filho ou na filha. Às vezes, os próprios adolescentes não entendem o que está acontecendo com eles. Esta é a minha história sobre minha experiência com depressão e ansiedade na adolescência.

Eu sempre fui uma criança mais quieta, então quando eu comecei a me retirar do convívio dos demais no meu primeiro ano do ensino médio, ninguém percebeu muito. Dormia duas a quatro horas por noite, comia com pouca frequência, sentia-me inútil e começava a perder o interesse em tudo – aulas e amigos. Com o passar do tempo, fiquei cada vez mais convencida de que era assim que eu era. Pensava em pedir ajuda e depois tinha medo de ser um fardo para meus amigos e familiares – constantemente reforçando a ideia de que eles não me queriam por perto.

Acordava todas as manhãs chorando e me arrastava para fora da cama, sentindo como se estivesse carregando uma mochila de 50 quilos. Apesar disso, mantive minhas notas e meus pais não tinham ideia do que estava acontecendo; eles ficaram frustrados comigo por ser “sensível demais”.

Naquele inverno, comecei a querer me machucar. Finalmente, criei coragem para dizer algo à minha mãe, e ela foi inflexível: era apenas a TPM. Minha confiança foi esmagada. E meus sintomas só pioraram. Meu relacionamento com meus pais se deteriorou à medida que brigávamos cada vez mais. Meus irmãos, com quem eu costumava ser tão próxima, agora me perguntavam “onde estava a velha você?”. Levou toda a minha energia apenas para passar o dia.

Por fim, naquele verão, confessei aos meus amigos como estava me sentindo – a inutilidade, os pensamentos suicidas. Mas o que eles poderiam fazer? Eu estava confiando a eles algo importante e complicado demais para crianças de 16 anos de idade. À medida que o verão passava, fiquei cada vez mais fixada no meu peso, me pesando diariamente, me exercitando demais e me restringindo a uma refeição por dia.

Então chegou a hora da escola novamente. Eu me senti esmagada e desamparada com todas as pressões de vestibulares, boas notas, um esporte. Foi quando os ataques de ansiedade começaram. De certa forma, acho que eles me salvaram.

O tremor e a hiperventilação foram algo físico que meus pais puderam ver e foi quando me pediram para ver o orientador da escola. Ela quase imediatamente me encaminhou a um terapeuta que imediatamente viu o problema maior – depressão.

Minha jornada para a saúde começou lá, mas estava – e está – longe de terminar. Por causa da minha depressão, comecei a me machucar e a ficar bêbada com frequência. Durante meu último ano, passei quase três meses internada e fiz vários programas de terapia para depressão e ansiedade. Lutamos várias vezes para encontrar a combinação certa de remédios que aliviariam meus sintomas. Na primavera, encontramos o “coquetel” certo e foi quando virei a esquina.

Vou lutar com depressão e ansiedade por toda a vida, mas há esperança para mim e para outras vítimas desses transtornos mentais. Se alguma coisa na minha história ressoou com você, peço que você conte a um adulto de confiança sobre os problemas que está enfrentando. Nunca há mal em conversar com os orientadores da escola; eles provaram ser um recurso inestimável para mim ao longo da minha experiência no ensino médio.

Se um amigo ou membro da família falou com você sobre sentir algo assim, diga que ele pode obter ajuda. Distúrbios de saúde mental, como depressão e ansiedade na adolescência, não são símbolos de fraqueza; são doenças graves que podem ser tratadas com terapia e medicamentos. Eu terminei o ensino médio e tenho orgulho de ir para a faculdade no próximo ano.

E você, como lidaria com essa doença com uma total descrença de quem está em seu entorno?

Depoimento n° 007 – Bipolaridade e Depressão

Depoimento n° 007 – Bipolaridade e Depressão

Quando eu tinha quinze anos cortei uma foto minha ao meio e entre um pedaço e outro escrevi: “antítese “. Era assim que eu me percebia, uma contradição. Dois opostos na mesma pessoa.

Lembro com exatidão que aos 16 tive depressão. Comecei a chorar pelo fim de um namoro e sete meses depois ainda chorava diariamente, porém sem saber mais por qual motivo. Na época não sabia que era depressão, pois não se falava sobre saúde mental, e isso ainda era um tabu. Mas hoje sei que foi o primeiro episódio depressivo do qual me lembro. Outros vieram no decorrer desses 37 anos. 

Aos 31, já bem informada sobre doenças psiquiatras,  ao me perceber novamente chorando diariamente sem uma justificativa, iniciei o tratamento com um psicólogo que me encaminhou ao psiquiatra por achar que eu deveria ser medicada diante do grande sofrimento emocional: eu não conseguia parar de chorar nem no trabalho. Tomei antidepressivo, fiz terapia por anos.

Mas poucos meses depois,  eu não sabia se pelo efeito excepcional da terapia, pela medicação correta, ou outra razão não aparente, eu simplesmente havia me transformado em outra pessoa… E isso era maravilhoso. Eu tinha me transformado em alguém em que sempre sonhei: extremamente segura, independentemente, eloquente, fazia amizades com uma facilidade espetacular. Eu era engraçada, admirada pelos demais, estava mais bonita. Tinha inúmeros projetos,  estava tendo sucesso na vida profissional. Realizei diversos sonhos, saltei de parapente, pousei nua para um fotógrafo. Tinha uma vida agitadíssima, a qual nenhum amigo conseguia acompanhar,  por isso precicei de vários colegas. Dormia de 3 à 4 horas por dia, trabalhava, tinha várias atividades de lazer,  saía todas as noites para beber. Experimentei drogas, fazia sexo incansavelmente quase diário com pessoas diferentes, coloquei muitos piercings, fiz muitas tatuagens, não me importava com o que os outros pensavam… A chuva caindo na minha pele me dava prazer, luz do sol era belíssima, o mundo incrível e eu maravilhosa! 

Aquela foi a melhor época da minha vida. Foram meses daquele jeito.  De lá pra cá,  não fiquei naquele estado de plenitude e de ausência de sono de novo. Mas certos dias eu estava mais agitada, irritada,  falante, limpando tudo, bebendo todos os dias ou com uma libido que ia além do normal para a maioria dos seres humanos. Uma semana depois e tudo voltava ao ritmo normal. Nestes anos, algumas fases de depressão que duravam meses, em que eu ficava sololenta, engordava, largava tantos projetos profissionais. 

Lendo assim, na ordem cronológica, até quem mal leu sobre psiquiatria diria que sou bipolar. Mas pasmem,  esse diagnóstico só me foi dado há um ano atrás. Isso corrobora com o que os artigos médicos já falam, que o portador de transtorno bipolar demora em média 10 anos entrando e saindo de consultórios para então receber o diagnóstico correto. Comigo aconteceu por ter tido a sorte de encontrar um psiquiatra do plano de saúde que me ouvisse por uma hora depois de tantos outros que não o fizeram. 

A convivência social é muito difícil e o número de relacionamentos desfeitos enorme. Mas saber realmente o que tenho me faz por a mão no freio na hora que quero explodir sem medir as consequências. 

Hoje percebo como minha vida profissional teria tido mais sucesso se eu tivesse me tratado desde os primeiros episódios do transtorno (que normalmente é confundido com depressão simples), pois a cada crise depressiva eu abandova tudo e depois tinha que começar do zero. 

Outra coisa que me chamou atenção ao estudar mais esse distúrbio foi que o número de suicídios em bipolares é bem alto e bem superior ao que ocorre em quem tem apenas depressão. Pensamentos suicidas são como uma sombra na minha vida, sempre me acompanhando. Já tentei uma vez. Esse ano eu tinha certeza de que não chegaria a dezembro nesta fase de depressão violenta que já dura um ano e dois meses. Saber das estatísticas me alertam a pedir ajuda antes de tentar contra minha vida. 

Esse ano abri mão do meu casamento, fui agredida por uma parente ignorante que acha que problemas psiquiatricos são simulações, perdi meses de trabalho com licença saúde, perdi muito tempo da minha vida, perdi meu melhor amigo, bens e dinheiro com medicação. Mas eu ganhei tantos seres humanos maravilhosos, dispostos a me socorrer, amigos de uma generosidade que eu achava que não existia mais. E sobretudo, eu ganhei um ano a mais de vida, por que eu não acreditava que sobreviveria até aqui. Então se me perguntarem qual foi a coisa mais importante que eu fiz em 2019, vou responder que foi sobreviver. Não teria conseguido sem os amigos, a família, um psiquiatra competente, bons remédios e minha psicóloga. 

E você, o que faria nessa situação?