Depoimento n° 010 – Abuso físico

Ontem à noite, meu namorado de 1 ano e meio e eu discutimos. Nós dois éramos tão ruins quanto o outro; eu admito isso da minha parte.

Mas então do nada, ele pulou no meu rosto, me empurrando, puxando meu cabelo, me chamando de nomes horríveis, me chutando, ameaçando quebrar minhas pernas e esmagar minha cabeça e, em seguida, arrancou um controle remoto de mim e cortou minha mão.

Então, quando eu estava chorando, parecia incomodá-lo mais, e ele zombou de mim por isso.

Eu queria ir para casa (tenho apenas 16 anos, ele tem 19), queria ver meus pais, mas moro a duas horas de distância, e os ônibus estavam fechados, e eu não queria preocupar minha família, então fiquei a noite toda.

Eu estava chorando a maior parte do tempo, então quando ele veio para a cama, me deu um abraço porque acho que eu precisava de conforto, mas eu não queria, minha cabeça me disse que não, mas eu queria. O que devo fazer?

Eu tenho que fingir esquecer a batida porque agi como se nunca tivesse acontecido na hora de dormir? Não sei, esse é meu primeiro relacionamento e agora fiquei com hematomas e sem ideia do que fazer ou o que pensar sobre tudo isso.

Preciso de ajuda.

– E você, o que faria no lugar dessa moça?

Depoimento n° 009 – Depressão na Adolescência

Os pais nem sempre reconhecem os sintomas de depressão e ansiedade dos adolescentes no filho ou na filha. Às vezes, os próprios adolescentes não entendem o que está acontecendo com eles. Esta é a minha história sobre minha experiência com depressão e ansiedade na adolescência.

Eu sempre fui uma criança mais quieta, então quando eu comecei a me retirar do convívio dos demais no meu primeiro ano do ensino médio, ninguém percebeu muito. Dormia duas a quatro horas por noite, comia com pouca frequência, sentia-me inútil e começava a perder o interesse em tudo – aulas e amigos. Com o passar do tempo, fiquei cada vez mais convencida de que era assim que eu era. Pensava em pedir ajuda e depois tinha medo de ser um fardo para meus amigos e familiares – constantemente reforçando a ideia de que eles não me queriam por perto.

Acordava todas as manhãs chorando e me arrastava para fora da cama, sentindo como se estivesse carregando uma mochila de 50 quilos. Apesar disso, mantive minhas notas e meus pais não tinham ideia do que estava acontecendo; eles ficaram frustrados comigo por ser “sensível demais”.

Naquele inverno, comecei a querer me machucar. Finalmente, criei coragem para dizer algo à minha mãe, e ela foi inflexível: era apenas a TPM. Minha confiança foi esmagada. E meus sintomas só pioraram. Meu relacionamento com meus pais se deteriorou à medida que brigávamos cada vez mais. Meus irmãos, com quem eu costumava ser tão próxima, agora me perguntavam “onde estava a velha você?”. Levou toda a minha energia apenas para passar o dia.

Por fim, naquele verão, confessei aos meus amigos como estava me sentindo – a inutilidade, os pensamentos suicidas. Mas o que eles poderiam fazer? Eu estava confiando a eles algo importante e complicado demais para crianças de 16 anos de idade. À medida que o verão passava, fiquei cada vez mais fixada no meu peso, me pesando diariamente, me exercitando demais e me restringindo a uma refeição por dia.

Então chegou a hora da escola novamente. Eu me senti esmagada e desamparada com todas as pressões de vestibulares, boas notas, um esporte. Foi quando os ataques de ansiedade começaram. De certa forma, acho que eles me salvaram.

O tremor e a hiperventilação foram algo físico que meus pais puderam ver e foi quando me pediram para ver o orientador da escola. Ela quase imediatamente me encaminhou a um terapeuta que imediatamente viu o problema maior – depressão.

Minha jornada para a saúde começou lá, mas estava – e está – longe de terminar. Por causa da minha depressão, comecei a me machucar e a ficar bêbada com frequência. Durante meu último ano, passei quase três meses internada e fiz vários programas de terapia para depressão e ansiedade. Lutamos várias vezes para encontrar a combinação certa de remédios que aliviariam meus sintomas. Na primavera, encontramos o “coquetel” certo e foi quando virei a esquina.

Vou lutar com depressão e ansiedade por toda a vida, mas há esperança para mim e para outras vítimas desses transtornos mentais. Se alguma coisa na minha história ressoou com você, peço que você conte a um adulto de confiança sobre os problemas que está enfrentando. Nunca há mal em conversar com os orientadores da escola; eles provaram ser um recurso inestimável para mim ao longo da minha experiência no ensino médio.

Se um amigo ou membro da família falou com você sobre sentir algo assim, diga que ele pode obter ajuda. Distúrbios de saúde mental, como depressão e ansiedade na adolescência, não são símbolos de fraqueza; são doenças graves que podem ser tratadas com terapia e medicamentos. Eu terminei o ensino médio e tenho orgulho de ir para a faculdade no próximo ano.

E você, como lidaria com essa doença com uma total descrença de quem está em seu entorno?

Depoimento n° 008 – Câncer de próstata

Depoimento n° 008 – Câncer de próstata

Antes de meu câncer ser detectado, eu não tinha conhecimento de câncer de próstata. Eu não tinha sintomas, estava indo ao médico apenas para um exame geral. Foi somente por causa da minha idade (67 anos na época) que meu médico mencionou algo sobre um exame de sangue do PSA. Decidi fazer um e, quando o resultado voltou, meu médico disse que eu deveria ir ao hospital para mais exames.

Fiz uma biópsia e lembro-me de receber uma ligação do meu clínico. Ela me disse, com muita sensibilidade, cautela e profissionalismo, que eu tinha câncer na próstata. Eu fiquei absolutamente em choque.

Felizmente, o câncer não era agressivo e, após algumas discussões, decidi fazer radioterapia seguida de terapia hormonal.

Eu tive sorte por ter sido diagnosticada a tempo. Era controlável e eu senti que esse tratamento era adequado para mim. Então, durante seis semanas, cinco dias por semana, eles marcariam minha próstata, depois eu entraria na máquina de radioterapia e passaria de dois a três minutos. Eu me sentia um pouco fraco após cada sessão e me disseram que eu poderia ter efeitos colaterais. Mas aos 67 anos, coisas como impotência não me preocupavam mais. Eu só sabia que tinha sorte, porque eu o descobri cedo. Eu senti que estava sob controle.

Após a radioterapia, fiz terapia hormonal e, desde então, volto ao meu médico todos os anos para um teste de PSA. Meu PSA agora é de 0,2 e não ultrapassou 0,4 desde que recebi o tratamento. Sinto-me muito confortável e saudável e realmente satisfeito com o andamento da minha vida.

Ao participar de um grupo de discussões no hospital, foi a primeira vez que compartilhei corretamente minha história. E foi então que percebi a diferença que falar sobre isso poderia fazer. Os homens começaram a fazer perguntas e a falar sobre ir ao médico.

Na minha comunidade, do interior do Ceará, o câncer é um assunto tabu e o câncer de próstata, por sua natureza, ainda mais. Os homens simplesmente não sabem nada sobre isso. Com o câncer de próstata afetando 1 em cada 8 homens, compartilhar minha história pode encorajar homens nordestinos a falar sobre isso.

Eu realmente acho que os homens deveriam falar mais sobre câncer de próstata. Na época quando fui diagnosticado, contei à minha família, que ficou bastante preocupada, mas não contei aos meus amigos. Porém, após minha recente conversa com o grupo, descobri como seria útil compartilhar minha experiência com outras pessoas e como isso pode incentivar outras pessoas a procurar ajuda.

Eu ainda estou muito saudável Espero permanecer saudável até o último suspiro e se puder ajudar outras pessoas contando a minha história, ficarei muito feliz e muito satisfeito.

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 007 – Bipolaridade e Depressão

Depoimento n° 007 – Bipolaridade e Depressão

Quando eu tinha quinze anos cortei uma foto minha ao meio e entre um pedaço e outro escrevi: “antítese “. Era assim que eu me percebia, uma contradição. Dois opostos na mesma pessoa.

Lembro com exatidão que aos 16 tive depressão. Comecei a chorar pelo fim de um namoro e sete meses depois ainda chorava diariamente, porém sem saber mais por qual motivo. Na época não sabia que era depressão, pois não se falava sobre saúde mental, e isso ainda era um tabu. Mas hoje sei que foi o primeiro episódio depressivo do qual me lembro. Outros vieram no decorrer desses 37 anos. 

Aos 31, já bem informada sobre doenças psiquiatras,  ao me perceber novamente chorando diariamente sem uma justificativa, iniciei o tratamento com um psicólogo que me encaminhou ao psiquiatra por achar que eu deveria ser medicada diante do grande sofrimento emocional: eu não conseguia parar de chorar nem no trabalho. Tomei antidepressivo, fiz terapia por anos.

Mas poucos meses depois,  eu não sabia se pelo efeito excepcional da terapia, pela medicação correta, ou outra razão não aparente, eu simplesmente havia me transformado em outra pessoa… E isso era maravilhoso. Eu tinha me transformado em alguém em que sempre sonhei: extremamente segura, independentemente, eloquente, fazia amizades com uma facilidade espetacular. Eu era engraçada, admirada pelos demais, estava mais bonita. Tinha inúmeros projetos,  estava tendo sucesso na vida profissional. Realizei diversos sonhos, saltei de parapente, pousei nua para um fotógrafo. Tinha uma vida agitadíssima, a qual nenhum amigo conseguia acompanhar,  por isso precicei de vários colegas. Dormia de 3 à 4 horas por dia, trabalhava, tinha várias atividades de lazer,  saía todas as noites para beber. Experimentei drogas, fazia sexo incansavelmente quase diário com pessoas diferentes, coloquei muitos piercings, fiz muitas tatuagens, não me importava com o que os outros pensavam… A chuva caindo na minha pele me dava prazer, luz do sol era belíssima, o mundo incrível e eu maravilhosa! 

Aquela foi a melhor época da minha vida. Foram meses daquele jeito.  De lá pra cá,  não fiquei naquele estado de plenitude e de ausência de sono de novo. Mas certos dias eu estava mais agitada, irritada,  falante, limpando tudo, bebendo todos os dias ou com uma libido que ia além do normal para a maioria dos seres humanos. Uma semana depois e tudo voltava ao ritmo normal. Nestes anos, algumas fases de depressão que duravam meses, em que eu ficava sololenta, engordava, largava tantos projetos profissionais. 

Lendo assim, na ordem cronológica, até quem mal leu sobre psiquiatria diria que sou bipolar. Mas pasmem,  esse diagnóstico só me foi dado há um ano atrás. Isso corrobora com o que os artigos médicos já falam, que o portador de transtorno bipolar demora em média 10 anos entrando e saindo de consultórios para então receber o diagnóstico correto. Comigo aconteceu por ter tido a sorte de encontrar um psiquiatra do plano de saúde que me ouvisse por uma hora depois de tantos outros que não o fizeram. 

A convivência social é muito difícil e o número de relacionamentos desfeitos enorme. Mas saber realmente o que tenho me faz por a mão no freio na hora que quero explodir sem medir as consequências. 

Hoje percebo como minha vida profissional teria tido mais sucesso se eu tivesse me tratado desde os primeiros episódios do transtorno (que normalmente é confundido com depressão simples), pois a cada crise depressiva eu abandova tudo e depois tinha que começar do zero. 

Outra coisa que me chamou atenção ao estudar mais esse distúrbio foi que o número de suicídios em bipolares é bem alto e bem superior ao que ocorre em quem tem apenas depressão. Pensamentos suicidas são como uma sombra na minha vida, sempre me acompanhando. Já tentei uma vez. Esse ano eu tinha certeza de que não chegaria a dezembro nesta fase de depressão violenta que já dura um ano e dois meses. Saber das estatísticas me alertam a pedir ajuda antes de tentar contra minha vida. 

Esse ano abri mão do meu casamento, fui agredida por uma parente ignorante que acha que problemas psiquiatricos são simulações, perdi meses de trabalho com licença saúde, perdi muito tempo da minha vida, perdi meu melhor amigo, bens e dinheiro com medicação. Mas eu ganhei tantos seres humanos maravilhosos, dispostos a me socorrer, amigos de uma generosidade que eu achava que não existia mais. E sobretudo, eu ganhei um ano a mais de vida, por que eu não acreditava que sobreviveria até aqui. Então se me perguntarem qual foi a coisa mais importante que eu fiz em 2019, vou responder que foi sobreviver. Não teria conseguido sem os amigos, a família, um psiquiatra competente, bons remédios e minha psicóloga. 

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 006 – Relacionamento abusivo

Depoimento n° 006 – Relacionamento abusivo

Eu estive em um relacionamento abusivo por cerca de 10 meses.

Minha namorada constantemente me jogava contra seu ex, correndo entre nós quando ela queria coisas e mentindo sobre isso. Ela definiu seu ex como o “grande monstro” que queria me expulsar e todos os seus amigos estavam atrás de mim. Ela me aconselhou a conseguir um apartamento seguro para que eu estivesse em segurança.

Ela me disse que eu era ingênua e inocente e não tão inteligente quanto ela, então eu precisava dela para me proteger. Ela se recusava a me permitir fazer qualquer trabalho doméstico, como eu deveria estar estudando / trabalhando / dormindo.

Eu sabia que ela era agressiva desde o início, mas ela me prometeu que nunca iria bater em uma mulher.

Reconheci sinais de que ela estava brincando comigo desde o início, mas não queria acreditar que a mulher que eu adorava pudesse estar brincando comigo. Então eu ignorei, ela era muito boa e cuidava de mim de um jeito que me machucasse de qualquer maneira. Conversei com meus amigos durante o relacionamento e eles me disseram para deixá-la, mas eu era teimosa e queria que isso funcionasse. Quando ela finalmente me bateu (e eu pude ver isso por um bom tempo – sua raiva era demais para ela lidar com isso), desmoronei.

Quando ela me prendeu contra uma parede e me deu um soco na boca duas vezes, desmoronei. Liguei para meus pais para me buscar. Percebi que todo o seu comportamento passado era típico de um relacionamento abusivo e tomei a decisão de nunca mais querer ver ou falar com ela. Infelizmente, isso significa que também perdi contato com os filhos dela.

Minha mãe me ajudou muito, porque já havia passado por isso antes. Meu melhor amigo me fez perceber que nada foi minha culpa. Os conselheiros da minha universidade que foram maravilhosos desde o início.

O que eu diria para alguém que está sendo abusado:

Vá embora. Eles podem ser alcoólatras ou viciados ou desempregados ou qualquer coisa…. mas a única pessoa que pode ajudá-los, são eles. Seu amor não os salvará e você somente se destruirá no processo. O comportamento deles só melhorará quando eles começarem a assumir a responsabilidade por seus próprios sentimentos e ações. Minha ex estava com raiva de todo mundo. Nenhum de seus problemas foi culpa dela, em sua cabeça. Não se deixe enganar por esse comportamento. Não espere que eles batam em você. Não espere que eles te matem. Se você se sentir desconfortável ou descontente com um certo aspecto do seu relacionamento, converse com alguém sobre isso.

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 005 – Alcoolismo

Depoimento n° 005 – Alcoolismo

Meu nome é Ana (nome fictício), sou alcoólatra.
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Minha primeira bebida levou ao meu primeiro apagão. O álcool tirou a timidez, paralisando a autoconsciência. Isso me deu uma nova sensação calorosa e feliz que me liberou para fazer qualquer coisa. Dancei em festas, gritei na rua, cantei em ônibus, viajei de carona com desconhecidos, conversei com estranhos, sem medo de nada. Eu amava. Eu pensava que isso me ajudava a ser o verdadeiro eu. Eu não queria fazer nada que não envolvesse bebida: cinema – chato, caminhadas – nem pensar!
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Aprendi cedo a tomar algumas bebidas no armário da minha mãe antes de sair, enchendo garrafas em miniatura para levar comigo. Eu pensava que todo mundo fazia isso! Olho para a adolescência e vejo que não tenho ideia do que minha família estava fazendo, nem lembrança de passar algum tempo com eles.
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Fui à Espanha por 6 meses – meus dias de universidade ainda são um buraco negro cheio de luzes cintilantes – e fui hospitalizada com intoxicação por álcool. Voltei e me casei com um bebedor profissional, viciado em trabalho, que cuidava das coisas chatas – contas, tarefas domésticas etc. Tínhamos dois filhos lindos e beber para festejar deixou de ser uma opção – começou assim minha bebida secreta.
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Escondendo garrafas, tentando esconder o
fato de que eu tinha tomado uma bebida, esgueirando bebidas extras sempre que tínhamos companhia, roubando dinheiro por bebida, dando qualquer desculpa para comprar uma garrafa. E ficou pior. Comecei a sentir vergonha – uma queimadura rápida que outra bebida consertaria.
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Consegui me divorciar de meu marido por seu comportamento irracional e encontrei outra pessoa que bebia como eu. Eu estava com um grande problema agora. Desesperadamente infeliz, a vida no caos, chegando no chão da cozinha pela manhã, tentando levar as crianças para a escola, a casa sendo recuperada pelo banco. Vi conselheiros, psicólogos – culpando minha infância, minha mãe, meu marido – qualquer pessoa e tudo.
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Eu estava com problemas. Mas se eu pudesse resolver o dinheiro (pedi emprestado e implorei a alguém que permanecesse esperando por tempo suficiente). Se eu pudesse encontrar o homem certo. Se ao menos eu tivesse uma educação diferente. Se eu conseguisse o emprego certo. Eu ficaria bem se tudo desse certo.
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Eu tinha uma última ‘amiga’. Uma vizinha que trouxe comida para as crianças me deu dinheiro. Ela me disse num domingo de manhã que eu tinha que fazer alguma coisa ou ela teria que ir embora. Ela simplesmente não conseguia mais assistir aquela autodestruição. Não sei o que me levou a fazer a ligação para o AA. Graças a Deus pelos membros do AA em serviço, pessoas no final do telefone 24 horas por dia, 7 dias por semana, para atender chamadas de pessoas como eu, sem ter para onde ir, sem mais desculpas.
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Dentro de algumas horas, dois membros do Alcoólicos Anônimos estavam na minha sala, cortinas fechadas, lágrimas de vodka e ranho correndo. Eles não estavam interessados nos meus problemas. Eles me contaram sobre o modo como bebiam e eu sabia que eram como eu. Eu nunca admiti isso para ninguém. Eles me falaram sobre alcoolismo, a alergia física que significava que, uma vez que eu tomei uma bebida, não consegui parar.
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A doença espiritual que levou à terrível solidão e terror. Essas pessoas me disseram que haviam encontrado uma maneira de parar de beber no AA e que suas vidas haviam mudado para melhor e estavam felizes. Não sei por que, mas acreditei neles. Eu fiz como eles sugeriram. Eu fui a uma reunião perto da minha casa, comecei a ir por outras pessoas, comecei a trabalhar nos 12 Passos. Depois de pouco tempo, o desejo de beber me deixou e não voltou. Minha vida mudou de maneiras que estão além da crença. Tenho fé no futuro e não tenho mais vergonha do meu passado. Sou muito grata pela chance de viver livre da obsessão pelo álcool.

Ana.

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 004 – Câncer de mama

Depoimento n° 004 – Câncer de mama

Eu fui diagnosticada com câncer de mama em estágio II há pouco mais de um ano e, pela minha experiência, os relacionamentos mudam MUITO com o câncer. Embora eu não seja uma dessas pessoas que pintará uma imagem rósea do câncer – e definitivamente não chamarei de bênção -, direi que algumas dessas mudanças são para melhor. No entanto, pelo menos um número igual cai do outro lado da equação.

No lado positivo, alguns relacionamentos se aprofundaram e cresceram. Isso é particularmente verdade para os familiares próximos que se envolveram comigo em duras conversas de vida e morte e que me ajudaram a enfrentar um diagnóstico que passou de não tão ruim a definitivamente não-bom. Eles me viram careca, mal conseguiam se concentrar ou ficar acordados e me ajudaram a celebrar os pequenos passos na longa e lenta estrada de volta.

Aproximei-me do meu marido, dos meus filhos adultos e dos seus parceiros e das minhas cunhadas; não há nada como dar as mãos e olhar diretamente para o abismo para unir vocês. Eles ofereceram conforto e apoio e, mais importante, incentivo. Nosso lema era “entendemos” e, juntos, conseguimos, mesmo que às vezes eu não tivesse certeza. Sei que pode parecer mórbido, mas quando estava prestes a entrar em quimioterapia após minhas duas cirurgias, escrevi cartas para meu marido e filhos, para o caso de não conseguir sobreviver. Eu queria escrevê-las quando ainda tinha todas as minhas faculdades, antes que o cérebro da quimioterapia atingisse, apenas para deixá-las com alguns pensamentos sobre as coisas que eu queria que elas soubessem, lembrassem ou tivessem cuidado. Essas cartas ainda estão seladas na mesa do meu marido e, até certo ponto, contei a cada uma delas as coisas mais importantes ao longo do ano passado.

Houve também algumas surpresas, como a colega nadadora que conheci um dia antes da minha primeira cirurgia no vestiário da academia, que me contou sobre o câncer de mama e que foi uma incrível fonte de apoio durante todo o ano. Eu desenvolvi uma amizade íntima com ela, apesar da nossa diferença de quase 20 anos de idade. Ou o total de estranhos que me foram apresentados por outros amigos e que haviam percorrido a estrada do câncer de mama antes de mim e que estavam lá para responder perguntas em todas as horas do dia ou da noite – O que você comeu durante a quimioterapia? Quando você começou a perder o cabelo? Você usava peruca ou aceitava a cabeça careca? Você ficou irracionalmente deprimido? E, é claro, havia os amigos que passavam por romances para ler, comida para comer, tricô para ensinar ou que enviavam textos ou e-mails regulares. Esse grupo de trapos era meu próprio grupo de apoio pessoal, espalhado por todo o país, e eles literalmente me levaram ao melhor. Câncer é assim.

Por outro lado, estavam as pessoas que estavam decepcionando seriamente – pessoas que não conseguiam sair do seu próprio caminho para apoiar e queriam microgerenciar meu câncer ou me dizer como estavam tão chateadas que estavam perdendo o sono. Ou alguém que, até hoje, um ano depois, ainda não reconheceu que tenho câncer, muito menos me deseja bem. Estou machucada e com raiva? Pode apostar. Mas, se eu for sincera, nada disso foi uma surpresa e, se eu tivesse pensado nisso, provavelmente poderia ter previsto que eles seriam idiotas. Então, de alguma forma, o câncer trouxe à tona as questões que estavam lá o tempo todo. Também me deu permissão para pedir a essas pessoas que parassem de ligar e me deixassem em paz. O câncer também faz isso.

No meio, há um grupo interessante de pessoas que estavam lá por um tempo durante o pior tratamento. Eles faziam check-in de vez em quando ou escreviam cartões e anotações, e tudo isso foi útil. Muitas dessas pessoas eram colegas ou amigos na periferia, mas esse tipo de atenção não pode ser razoavelmente sustentado a longo prazo. Eu pensei tolamente que esses eram os primórdios de um relacionamento mais próximo e, quando procurei, após o tratamento, continuar o que pensava ser o começo de algo mais profundo, descobri que não eram realmente amigos, apenas conhecidos tentando fazer a coisa certa. Ainda sou grata pela atenção deles, mas agora vejo o que era. Câncer também é assim.

Por fim, o câncer ofereceu uma perspectiva diferente. A vida é realmente curta, mais curta do que eu jamais imaginei e poderia ser ainda mais curta. Mas o grupo de pessoas que eu quero comigo nesta jornada é pequeno, precioso e cheio de pessoas que me viram e continuam ao meu lado.


Depoimento n° 003 – Alcoolismo

Depoimento n° 003

Certa vez, passei 58 dias bebendo sem parar. Isso mesmo, você não leu errado: foram cinquenta e oito dias bebendo o dia todo. Eu só parava para dormir (para bodar, na verdade) e já deixava a primeira dose do dia seguinte pronta na geladeira. O gelo derreteria, mas a bebida se manteria fria o suficiente para atender ao paladar.

Qualquer hora que eu acordasse era hora de beber. Se eu acordasse três da manhã, era hora de beber; se acordasse às oito, também era hora de beber. Nunca tinha uma hora em que a bebida não fosse bem vinda. O corpo cheio de ressaca não aceitava bem a bebida, mas todo mundo que bebe sabe que depois da primeira dose fica tudo mais fácil.

E para que ela fosse sempre bem vinda, eu precisei tirar todo o resto que “atrapalhasse” a bebida. Isso significou me afastar da minha família e dos meus amigos, que em vão tentaram me ajudar – mas é difícil ajudar quem não quer ser ajudado.

As músicas repetidas centenas de vezes ajudavam a criar a aura de decadência. As fezes de gato pelos cantos da casa tornavam o ambiente totalmente inóspito. Até hoje tenho dores de arrependimento do que o meu pobre gatinho sofreu com um dono que não limpava sua sujeira, que se esquecia de colocar água fresca e que o obrigava a fazer suas necessidades pelos cantos da casa.

Outros detalhes básicos da vida foram perdidos. A higiene foi para o espaço. Passava dias e dias sem tomar um banho, sempre bêbado. Não escovava os dentes nem penteava os cabelos. Tudo se resumia ao álcool. As poucas pessoas que recebi nesse período estavam lá para beber e não atrapalhar a minha bebida, que era a prioridade.

E quando eu vi, de repente, haviam-se passado 58 dias e 74 garrafas de vodka. Não sei como sobrevivi.

Mas estou aqui.

#alcoolismo #saudemental #alcool #descontrole #comportamentoexcessivo #depressãoécoisaséria

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento n° 002 – Bipolaridade

Depoimento n° 002

Queria falar um pouco sobre um sintoma muito comum na fase de mania da bipolaridade: a gastança. E vou usar um exemplo antigo e dois bem recentes.
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Sabe criança que fica com inveja que o amiguinho ganhou um presente e ele quer também? O bipolar maníaco é assim também. Bastou a filha de um amigo ganhar um peixe Betta que se instalou em mim a necessidade de ter um também.

Necessidade que se tornou tão grande que eu tive que sair de casa pra ir comprar o peixe, que é o animal mais inútil que se pode ter.
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Outro exemplo foi que minha psicóloga me incentivou a procurar novos hobbies. O que eu fiz? Comprei todo o material de pesca, desde a vara até as iscas artificiais. Por puro impulso de gastar dinheiro, porque nem de pescar eu gosto.
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Mas o maior exemplo foi quando a Cosac Naify (melhor editora do Brasil) quebrou e fez um queima de estoque. Não vem ao caso dizer o número, mas posso dizer que gastei mais de oitenta mil reais em mil e quinhentos livros, a maior parte deles inútil para mim porque de áreas que não me interessam.
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Por isso, quando você se sente em fase de mania, tome MUITO controle sobre suas finanças. Eu já perdi tudo duas vezes diferentes. E é evitável. Converse com seu psiquiatra e diga que está se sentindo assim, ele certamente vai mudar ou aumentar sua medicação para tirar você da crise.
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Lembre-se sempre: o psiquiatra é seu melhor amigo. Não minta pra ele, siga seus conselhos e tente não gastar demais…

#bipolaridade #saudemental #depressao #euforia #mania #bipolar #psiquiatra

E você, o que faria nessa situação?

Depoimento nº 001 – Depressão

Depoimento n° 001

Não sei porque eu ainda persisto se sei qual será o fim. Prolongando o sofrimento que se renova como o fígado de prometeu, em uma  tortura infinda.

Pois certos momentos da minha vida se resumem a tentar me convencer diariamente, repetindo baixinho pra mim mesma: “Não se mate. Só por hoje. Ainda, não. Aguente só por mais um dia!” Quem acha essa vida bela nunca teve depressão!

Sobrevivo como a raiva com a qual não sei lidar, ou de onde veio. Terá toda aquela minha tristeza da juventude se transformado nisso?

Eu chorava como um monte de cacos vidro recém quebrado. Agora, os cacos desgastados, envelhecidos em amargura, perdendo a capacidade de cortar, transformaram-se em dor apodrecida. Por isso, não te cause surpresa minha ira. ⠀

Ao menos isso a tristeza tem de bom, a inspiração e a magreza que traz consigo.

E você, o que faria nessa situação?